Foto: Arquivo Pessoal
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BRASIL 61 ENTREVISTA: Especialista no tratamento da Covid-19 recomenda alternativas para afastar risco de colapso no atendimento

Médico defende a adoção de testes e autotestes, a telemedicina e a boa orientação aos pacientes para evitar a demanda concentrada nos postos de saúde e a circulação do coronavírus


“É um ponto fundamental: separar a testagem do atendimento médico”, afirma o cardiologista Fabrício da Silva,  especialista em emergências clínicas que atua na linha de frente na assistência às vítimas da Covid-19, desde março de 2020. Os testes e a telemedicina seriam a alternativa para aliviar a sobrecarga nos sistemas público e privado de saúde por conta da coincidência, no Brasil, do surto de influenza com a disseminação da variante ômicron do coronavírus, altamente contagiosa, mas menos letal. 

O cardiologista Fabrício Silva se tornou um estudioso da Covid-19, publicou artigos sobre a doença e acompanha pacientes internados de perfis variados, inclusive autoridades públicas em Brasília (DF). O especialista recomenda a adoção em larga escala da testagem e do autoteste para que as pessoas contaminadas pelo coronavírus iniciem o quanto antes o isolamento. A telemedicina também serviria como solução para aliviar a busca por atendimento presencial nas redes pública ou particular. 

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Atestados e colapso no sistema de saúde

Para o médico, a exigência por atestados, para formalizar afastamentos do trabalho, agrava o risco de colapso.

“Um dos motivos da sobrecarga no serviço de saúde é a necessidade de o indivíduo apresentar um exame médico no trabalho quando apresenta sintomas gripais”, argumenta Fabrício. “Isso gera um grande impacto econômico e financeiro, que tem que ser levado em consideração, mas, mais do que isso, essa dinâmica da obrigatoriedade de apresentação do atestado médico acaba sobrecarregando ainda mais o serviço de saúde que, hoje, já se encontra saturado nas emergências.”

A crítica à burocracia vai adiante. “A gente atrelando a testagem a uma prescrição médica e a uma avaliação médica, afunila e cria um gargalo em relação à acessibilidade, sobrecarrega o serviço de saúde e faz com que aqueles indivíduos que realmente precisam de um atendimento médico emergencial tenham maior dificuldade para conseguir e isso faz com que a testagem não seja tão ampla como nós gostaríamos”, analisa o médico formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com especializações pelo Instituto de Cardiologia do Distrito Federal.

Telemedicina

A telemedicina, que prevê consultas com o uso de tecnologias digitais e que ganhou regulamentação do Conselho Federal de Medicina em setembro último, também aparece como indicação de ferramenta útil para diminuir a circulação do vírus e reduzir o risco de colapso. “O indivíduo que é positivo deveria ter um acesso precoce a informações e isso poderia ser feito por meio do teleatendimento, e não necessariamente por meio do atendimento médico”, diz o doutor Fabrício da Silva, que inclusive defende a prestação desse serviço por outros profissionais da saúde, enfermeiros e fisioterapeutas.

Com a pandemia perto de completar dois anos e as seguidas mutações do coronavírus, que ameaçam a efetividade das vacinas, o fantasma da sobrecarga no serviço de saúde se faz presente. Mas o cardiologista distingue problemas na testagem para identificação da contaminação pela Covid-19 de crise no sistema de saúde. “Isso é fato, há locais com carência de testes, mas não é necessariamente um colapso no atendimento”, explica o médico. “Na hora que conseguirmos separar e flexibilizar a forma de atendimento, as novas possibilidades vão reduzir a chance de colapso.”

Sintomas Covid-19

Feito o diagnóstico e confirmada a contaminação pela Covid-19, a preocupação quanto à correta e precisa orientação ao paciente está presente no discurso do especialista. “Sabendo dessa curva da evolução da doença, é importante que, logo na fase inicial, depois do diagnóstico, o indivíduo consiga acesso a informações, que entenda detalhes sobre o seu autocuidado, saiba quais são os sinais e sintomas de alerta”, diz Silva. O objetivo é evitar que a doença afete com gravidade os pulmões e torne a internação inevitável.

“No sexto ou sétimo dia, ele (o doente) precisa de uma avaliação médica para definição se há a necessidade de uma investigação mais a fundo, investigação com exame de imagem, tomografia para documentar que o paciente está entrando na fase da pneumonia”, comenta Silva. “Isso muda o tratamento, a abordagem clínica do paciente e faz com que a evolução, se evoluir para a pneumonia, seja mais branda.” Esse cuidado, segundo o médico, continua válido mesmo que a evolução para a forma mais grave da doença seja menos comum com a variante ômicron. “Precisamos de vigilância.”

Silva explica que a Covid-19 tem se manifestado nos pacientes em duas fases bem demarcadas. A primeira, que dura de três a cinco dias, podendo se estender a até sete dias, é o período gripal. Geralmente depois de uma semana desde o início dos sintomas, pode ocorrer a evolução para uma pneumonia causada pela contaminação com o coronavírus. E os infectados têm sofrido mais intensamente entre o décimo e o 13º dias, sempre contando da data de percepção dos primeiros incômodos.

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LOC.:. O cardiologista Fabrício da Silva, especialista em emergências clínicas, que presta assistência às vítimas da Covid-19 desde o início da pandemia,  propõe alternativas para evitar sobrecarga no atendimento. Ele defende a adoção da testagem em larga escala, o autoteste, a telemedicina, destaca a importância da orientação ao paciente e critica a burocracia dos atestados médicos.

TEC./SONORA: Doutor Fabrício da Silva, cardiologista

"Agora, duas grandes correntes vêm ganhando força no País quando a gente tange o assunto saúde coletiva, saúde pública: essas medidas para a redução da busca às emergências, uma vez que a gente enfrenta a pandemia do coronavírus, sobreposta ao surto da influenza, que tem uma apresentação clínica muito semelhante e a diferenciação acontece com exames, com testes específicos; e uma corrente que vem crescendo agora é a possiblidade da autotestagem, que já acontece em outros países, e que possibilita que o paciente tenha o diagnóstico mais rapidamente e consiga buscar assistência mais direcionada, basta ter uma orientação apropriada, sem sobrecarregar o atendimento do País".
 

LOC.: A imprensa noticia crise quanto à capacidade de atendimento das pessoas que querem se testar. 
 

TEC./SONORA: Doutor Fabrício da Silva, cardiologista

"Isso é fato, há locais com carência de testes. Mas não é necessariamente um colapso no atendimento. É importante uma diferenciação agora: o indivíduo ter acesso ao teste e o indivíduo ter acesso a um atendimento médico, ao atendimento de saúde. São dois conceitos que, hoje, no Brasil, eles estão amarrados, interligados, e que não deveria ser assim. Isso ganha mais força por causa das correntes que discutem a autotestagem. É fundamental o indivíduo ter direito ao acesso ao seu diagnóstico. E isso se daria com o acesso ao teste. A gente atrelando essa testagem a uma prescrição média e a uma avaliação médica, a gente afunila e cria um gargalo em relação à acessibilidade, sobrecarrega o serviço de saúde e faz com que aqueles indivíduos que realmente precisam de um atendimento médico emergencial tenham maior dificuldade para conseguir e isso faz com que a testagem não seja tão ampla como nós gostaríamos. É um ponto fundamental: separar a testagem do atendimento médico. O indivíduo que é positivo deveria ter um acesso precoce a informações e isso poderia ser feito por meio do teleatendimento, e não necessariamente atendimento médico". 

LOC.: Mas as pessoas empregadas precisam de um documento para se afastar do trabalho quando ficam doentes.
 

TEC./SONORA: Doutor Fabrício da Silva, cardiologista

"Um dos motivos da sobrecarga no serviço de saúde é a necessidade de o indivíduo apresentar um exame médico no trabalho quando ele apresenta sintomas gripais. O indivíduo apresenta o sintoma e busca assistência, primeiro para testar ou para conseguir o atestado a fim de comprovar a necessidade do seu isolamento, do afastamento do trabalho. Isso gera um grande impacto econômico e financeiro, que tem que ser levado em consideração, mas, mais do que isso, essa dinâmica da obrigatoriedade de apresentação do atestado médico acaba sobrecarregando ainda mais o serviço de saúde que, hoje, já se encontra saturado – nas emergências".
 

LOC.: Que referenciais a pessoa deve buscar em si mesma para decidir que precisa fazer um teste?

TEC./SONORA: Doutor Fabrício da Silva, cardiologista

"Os sintomas são os sintomas gripais: dores no corpo, dor de garganta, dor de cabeça, nariz escorrendo, coriza, febre, tosse. Existiam algumas correntes de orientação tentando diferenciar a sintomatologia e falando, pelo tipo de sintoma, se era covid ou se era influenza. Mas, de fato, isso não é uma realidade, os sintomas não são específicos para cada doença. Então, frente a essas doenças, o paciente deve ser testado tanto para covid quanto para influenza. Claro, na medida do possível em relação ao acesso aos testes. Mas ainda não há uma especificidade em relação aos sintomas. Na prática, diferentemente das outras variantes, na ômicron a gente tem ouvido mais queixas de odinofagia (sensação de dor ao engolir), a dor de garganta, garganta inflamada. E, nas fases mais tardias, sintomas francos de sinusite, isso tem sido bem mais recorrente na variante ômicron do que nas demais, que nós já passamos".
 

LOC.: Que recomendação o senhor daria aos seus colegas, que estão na linha de frente, lidando com pessoas suspeitas de contaminação pela covid-19?
 

TEC./SONORA: Doutor Fabrício da Silva, cardiologista

"Aos colegas médicos, é primordial dar o máximo de informação às pessoas sobre a evolução dessa doença, sobre os dias estratégicos de serem reavaliados, sobre o risco do desenvolvimento de pneumonia a partir do sétimo dia, sobre o controle de sintomas e, essencialmente, sobre o respeito ao tempo de isolamento, que reduz o risco de transmissão e de contaminação de outras pessoas".
 

LOC.: É possível imaginar, doutor, uma vida sem máscaras, sem álcool gel e com as pessoas se abraçando?
 

TEC./SONORA: Doutor Fabrício da Silva

"Eu acredito que sim. Não sei quando. Já passamos por outras pandemias e isso foi superado. Não será diferente agora. Nós vamos conseguir superar. Não sei ao certo quando, mas quanto mais a gente se fortalecer e nos imunizarmos e evitarmos a circulação do vírus, mas rapidamente nós conseguiremos nos livrar (da Covid-19)".

LOC.: Eu conversei com o cardiologista Fabrício da Silva, especialista no atendimento de vítimas da Covid-19 desde o início da pandemia, em Brasília, no Distrito Federal. O médico comentou a necessidade de testes e da telemedicina como estratégias de enfrentamento à pandemia. 

Reportagem: Luís Cláudio Cicci